Artigo

A transformação do supply chain da Ahold Delhaize

Por Steve Banker,
Ahold Delhaize’s Supply Chain Transformation

Esse artigo foi publicado originalmente na Forbes.

Em dezembro de 2019, a Ahold Delhaize, varejista de supermercados global, anunciou que iria investir US$ 480 milhões para transformar e expandir as operações de seu supply chain nos EUA como base para uma nova estratégia de mudança para a autodistribuição, prevista para durar 3 anos.Com a autodistribuição, a empresa reincorpora diversas atividades do supply chain que eram terceirizadas anteriormente.  

A Ahold Delhaize foi estabelecida em julho de 2016 com a fusão da Ahold e do Delhaize Group. As bandeiras da rede do grupo varejista de supermercados nos EUA incluem Food Lion, Giant Food (de Landover), The GIANT Company (de Carlisle), Hannaford e Stop & Shop. A empresa tem uma forte presença na costa leste. As operações nos Estados Unidos geraram mais de US$ 47 bilhões das receitas desse varejista global – mais de 60% do total.

De acordo com Chris Lewis, Vice-Presidente Executivo de Supply Chain para o Retail Business Services, a Delhaize fazia a própria logística e a maior parte de suas compras, antes da fusão com a Ahold Delhaize. Por sua vez, a Ahold terceirizava cerca de 70% da logística e compras para a C&S Wholesale Grocers, a maior atacadista de suprimentos para supermercados dos Estados Unidos. Retail Business Services é o grupo de serviços compartilhados que surgiu após a fusão. Uma das atribuições do Retail Business Services são os serviços do supply chain, incluindo logística, compras nos Centros de Distribuição e a estratégia de supply chain para as operações da Ahold Delhaize nos Estados Unidos.

Nos EUA, 17 Centros de Distribuição fornecem atendimento a mais de 2 mil lojas da Costa Leste. A empresa está em processo de compra de outro Centro de Distribuição, construindo 2 instalações refrigeradas e acaba de inaugurar um CD de temperatura ambiente em Connecticut. 1,1 bilhão de caixas passam por essa rede a cada ano. A rede de armazéns vai expandir para 26 instalações até 2023. No negócio anunciado em dezembro, a Ahold Delhaize USA vai reincorporar todos os Centros de Distribuição terceirizados pelos próximos 30-36 meses.  

“Mudar para um supply chain autogerenciado permitirá que o Retail Business Services reduza custos para as marcas locais que atende, melhore a velocidade de armazenamento, aprofunde os relacionamentos com fornecedores e posicione melhor os centros de distribuição de nossas empresas nas comunidades que atendemos”, de acordo com Sr. Lewis. “Essas mudanças nos permitirão tirar proveito do valor financeiro e estratégico em compras, logística e armazenamento para fornecer o produto mais fresco por meio da rede de entrega mais avançada e eficiente do setor de supermercados. A partir da conclusão dessa transformação, a Ahold Delhaize economizará US$ 100 milhões por ano.”

A tecnologia de supply chain é fundamental para a transformação

Os dois armazéns refrigerados que a empresa planeja inaugurar serão instalações altamente automatizadas. Os centros de distribuição, em construção em parceria com a Americold, usarão sistemas automatizados de armazenamento e recuperação (AS/RS) da Dematic. Esse investimento vai reduzir custos com mão de obra. Afinal, conseguir trabalhadores dispostos a trabalhar em CDs refrigerados pode ser um problema. No futuro, o Retail Business Services também vai avaliar o uso de robôs móveis autônomos para dar suporte aos coletores dos armazéns.

A Ahold Delhaize está comprometida com a sustentabilidade. Seu relatório anual combina resultados financeiros e de sustentabilidade. O relatório anual afirma que a varejista global foi classificada entre os líderes do setor no Dow Jones Sustainability World Index. Ela tem reduzido as emissões de carbono equivalente em 4,6% ano após ano.

Assim, tão importante quanto a automação, tem sido garantir que os centros de distribuição refrigerados estejam em uma localização ideal. A varejista usou uma solução de design de rede da LLamasoft para localizar os armazéns adequadamente. O software da LLamasoft permite que os custos de transporte, armazenamento e manutenção de estoque sejam negociados de tal maneira que permita à empresa atingir as metas de nível de serviço e reduzir custos. Essas duas instalações refrigeradas, quando começarem a operar, vão reduzir as viagens dos armazéns para as lojas em mais de 4 milhões quilômetros, reduzindo, ao mesmo tempo, os custos de frete em US$ 3 milhões e as emissões de gases de efeito estufa.

Embora uma boa localização dos armazéns ajude a reduzir a quilometragem percorrida pelos caminhões no atendimento aos pedidos às lojas, os sistemas de gerenciamento de transporte (TMS) também desempenham um papel fundamental. Atualmente, 1.000 caminhões viajam quase 200 milhões de quilômetros ao ano em toda a rede da Costa Leste. Um TMS reduz os custos de frete de várias formas. Para as transportadoras contratadas, o TMS leva a melhores negociações de contratos de longo prazo. A funcionalidade de auditoria de frete garante que as transportadoras não recebam pagamentos a mais. Mas, grande parte da economia com um TMS vem de rotas melhores e a garantia de que os caminhões rodem mais carregados – recursos que economizam dinheiro e reduzem as emissões. O Retail Business Services escolheu o sistema de gerenciamento de transporte da Manhattan Associates.

Ele também está em processo de escolha de um sistema de gerenciamento de armazém (WMS) em comum. Um WMS aumenta a eficiência da coleta, o que reduz os custos de mão de obra. Para garantir que os caminhões sejam carregados com eficiência e saiam no horário previsto, as soluções de WMS e TMS totalmente integradas aumentam as sinergias. Embora o Retail Business Services não tenha tomado a decisão final sobre com quem irá fornecer o WMS, a solução WMS da Manhattan Associates está no páreo.

O Sr. Lewis disse: “estamos dispostos a adicionar complexidade às nossas operações de armazém, para reduzir a complexidade nas lojas”. Para que um palete misto possa chegar a uma loja, um palete com diferentes produtos em diferentes camadas, ele deve ser projetado de tal forma que quando a camada superior for retirada e as mercadorias colocadas nas prateleiras, os produtos das camadas seguintes estarão dispostos de tal modo que não será necessário que os funcionários movam o palete de uma extremidade da loja para a outra para chegar ao próximo local de estocagem.

O Retail Business Services também está implementando um sistema de planejamento de demanda e reabastecimento de estoque. A solução de ponta a ponta da RELEX estará disponível para todas as 1.200 lojas Food Lion e Hannaford até o primeiro trimestre de 2021. Em seguida, ela será implementada em fases para as outras bandeiras. A solução aplica aprendizado de máquina específico por marca a dados de ponto de venda, histórico de vendas e planos promocionais para prever a demanda com mais precisão. Melhores previsões de demanda levam a uma maior disponibilidade de produtos nas prateleiras, com níveis de estoque mais baixos. A solução RELEX também possui forte automação, que gera pedidos de reposição de forma automática para uma grande porcentagem dos pedidos. O sistema RELEX também informa quando detecta que a substituição dos planejadores para o pedido de reabastecimento de uma ou mais lojas está muito baixo. Isso pode gerar perda de vendas. O sistema gera avisos de perdas de vendas que chegam aos gerentes dos planejadores. Esse é um poderoso catalisador de mudança cultural. A economia de estoque é outra maneira pela qual o Retail Business Services busca atingir a economia anual de US$ 100 milhões.

A colaboração com a operação das lojas e fornecedores é fundamental

A chave para alcançar essas melhorias e economias no nível de serviço das lojas é conseguir um estoque de loja mais preciso. O estoque no nível das lojas é reconhecidamente pouco preciso, embora tenha melhorado nos últimos anos. A Ahold Delhaize almeja um nível de serviço na prateleira de 99%. A pesquisa de Chris Cunnane, do ARC Advisory Group, mostra que apenas 17% dos varejistas alcançam esse nível de serviço.Os supermercados lidam com muitos produtos diferentes e um giro de estoque tão rápido, que a precisão do estoque no nível da loja deste setor é, provavelmente, muito menor do que em outros tipos de varejo.

Lewis explicou que as operações da loja são responsáveis por melhorar a precisão do estoque dela. Mas, ao usar a solução RELEX, a equipe de supply chain ajuda a prever quando há uma contagem de estoque errada para uma SKU. A solução RELEX inclui regras de negócios, que sugerem que seja feita uma auditoria na prateleira para aquele produto. Os alertas de vendas perdidas direcionados aos gerentes das lojas fornecem incentivos para que as lojas façam auditorias de prateleira e reposição. “Com o comércio eletrônico e escolha do atendimento de pedidos de clientes na loja, a precisão do estoque no nível da loja tornou-se ainda mais importante”, explicou Lewis.

O Retail Business Services oferece robôs móveis na loja, que marcas selecionadas da Ahold Delhaize USA escolheram para implantar, com aparência simpática, chamada Marty, para identificar riscos, como comida espalhada pelos corredores. Em seguida, os robôs fornecem relatórios que permitem ações corretivas. Eles ajudam as lojas a reduzir os riscos causados por derramamentos, além de permitirem que os funcionários passem mais tempo atendendo e interagindo com os clientes. No futuro, disse Lewis, esses robôs também poderão ser programados para melhorar o desempenho do estoque nas prateleiras, identificando espaços vazios.

O Retail Business Services também procura trabalhar em melhor colaboração com fornecedores por meio de novos programas de compras. Por exemplo, a empresa pode identificar locais no supply chain de ponta a ponta, do fornecedor ao varejista, em que um tempo de permanência excessivo ou um sequenciamento de remessa insatisfatório estejam impedindo a execução do atendimento. O Retail Business Services está selecionando instrutores para trabalhar com as equipes de supply chain do fornecedor. A ideia é que, se o Retail Business Services reduzir os custos para os fornecedores, eles compartilharão suas economias.

A visibilidade do estoque é fundamental para essa colaboração. Quando uma empresa de bens de consumo opta por fazer uma promoção na loja, ela deseja saber se ela foi inteiramente executada em todas as lojas participantes. Se a opção é por uma promoção de ponta de gôndola, a visibilidade na loja é organizada com os colaboradores tirando fotos das pontas das gôndolas com iPads (no futuro, isso poderá até ser uma tarefa para os robôs Marty). Pode ser que as fotos mostrem que em 5% das lojas selecionadas, as pontas das gôndolas não estão disponíveis. Isso seria transformado em alertas e as operações da loja seriam acionadas para organizar as pontas de gôndolas corretamente. Sendo assim o fornecedor tem a garantia de receber pelo que pagou. Uma execução bem-feita incentiva o fornecedor a se engajar em eventos maiores, mais vantajosos para todos. Por exemplo, em vez de fazer uma promoção em apenas uma bandeira, fazê-la em todas as bandeiras - e em todas as 2.000 lojas - se torna possível. Para uma promoção dessa envergadura, o Retail Business Services pode pedir um desconto extra de cinco centavos por caixa.

O Retail Business Services também trabalha para desenvolver recursos aprimorados de torre de controle. Essas torres de controle darão maior visibilidade, tanto para o estoque em repouso nas lojas e nos centros de distribuição, quanto para o estoque em movimento, a caminho dos centros de distribuição. Se um furacão estiver prestes a atingir a Costa Leste, seria natural querer abastecer as lojas com mais água e produtos que os clientes desejam para se proteger da tempestade. A torre de controle é capaz de identificar se os armazéns têm água suficiente disponível, mas que pode ser um problema conseguir mão de obra suficiente para realizar a reposição com rapidez. A torre de controle fornece a visibilidade para explorar diferentes opções.  

Em suma, essa é uma grande transformação. A transformação vai economizar quantias significativas de dinheiro, melhorar o atendimento ao cliente e ajudar a Ahold Delhaize a atingir seus objetivos de sustentabilidade. A transformação depende de tecnologia, mudança cultural e novos processos. A Ahold Delhaize não recebeu o mesmo reconhecimento de eficiência no supply chain que a Amazon e o Walmart. Isso vai começar a mudar tais percepções.

 

Breve biografia de Steve Banker

Sou Vice-Presidente de Serviços de Supply Chain do ARC Advisory Group, uma empresa líder do setor em análise e consultoria em tecnologia. Envolvo-me em pesquisas quantitativas e qualitativas sobre tecnologias de gerenciamento, melhores práticas e tendências emergentes do supply chain. Tenho publicações na Supply Chain Management Review, uma coluna semanal na Logistics Viewpoints (www.logisticsviewpoints.com), sigam-me no Twitter, @steve_scm, ou contatem-me no sbanker@arcweb.com.

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